Seguindo a lógica dos moralistas, a Bíblia deveria ser proibida para menores de 18 anos

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Faz algum tempo, escrevi crônica sobre as diferenças cerebrais entre homens e mulheres, fazendo uma analogia bem humorada entre humanos e primatas. Recebi críticas de um cidadão registrando que não existem comparações entre humanos – filhos de deus, disse ele – e animais irracionais. E recomendou que eu lesse a Bíblia. Dias depois, ao ler uma crônica erótica de minha autoria e saber que eu lancei uma plaquete intitulada “Sonetos eróticos e/ou pornográficos” uma amiga lamentou que eu gastasse tempo e energia louvando a devassidão e também recomendou que eu lesse mais a Bíblia.

a Bíblia deveria ser proibida para menores de 18 anos

 

Bem, resolvi seguir o conselho dos críticos. Não que eu não tivesse lido a Bíblia. Já a devorei de cabo a rabo por duas vezes (pulando os livros técnicos como Números, Deuteronômio), cada uma com um espírito diferente: na primeira vez, ainda crente na existência de um ser superior, li para ratificar essa certeza. Na segunda, já desconfiado que tal idéia poderia ser tão irreal como Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, ETs e Smurfs, li com olhos mais críticos, pinçando contradições e absurdos. Decidi nesta terceira lida, algo superficial e sem rigor cronológico, atentar para o pitoresco, o insólito, ou para ser mais grosseiro e exato, para a parte barra-pesada do livro sagrado do cristianismo.

Ou o leitor ainda acha que a Bíblia tem apenas ensinamentos edificantes e parábolas de Jesus? O livro está coalhado de episódios que nada ficam a dever ao Decamerão, de Boccaccio ou aos romances picantes de Fielding e Cleveland. Vamos, pois, aos trechos da Bíblia que poderiam – sob uma ótica moralista bem afeita aos cristãos – ser proibidos para menores de 18 anos. E que o leitor nem imagine Maria Madalena aqui. Ela é light para o padrão do Antigo Testamento.

Há alcoolismo: “Bebendo do vinho (Noé) embriagou-se e se pôs nu dentro de sua tenda” (Gênesis 9, 21). Há coito interrompido: “Sabia Onã que o filho não teria tido por seu e todas as vezes que possuía a mulher do seu irmão, deixava o sêmen cair na terra para não dar descendência a seu irmão” (Gênesis).

Bizarrices sexuais temos aos montes; adultério, incesto, ninfomania, satiríase, estupro etc. Quando Ló fugiu de Sodoma e Gomorra com as filhas para uma caverna, elas concluíram que não havia nenhum homem naquela terra com quem se unirem e continuarem a linhagem do pai. Decidiram digamos, deitar com o próprio pai para conservar sua descendência. Primeiro uma o embriagou com vinho e deitou-se com ele e na noite seguinte a irmã fez o mesmo. “E assim as duas filhas de Ló conceberam do próprio pai” (Gênesis 19, 30-35).

Mas, poucas histórias são tão insólitas (e lascivas) como a de Jacó, filho renegado de Isaac, que trabalhando com seu tio Labão resolveu casar-se com a prima Raquel, a quem amava. Contudo, na noite de núpcias, Labão entregou a Jacó não Raquel, mas sua outra filha, Lia. Jacó só percebeu a “pequena” diferença do dia seguinte, quando o casamento estava consumado. Labão concordou em também lhe entregar Raquel por esposa em troca de mais sete anos de trabalho. Assim foi feito e Jacó casou com a amada Raquel. Acontece que Raquel não engravidava, e Lia sim, de forma que Raquel deu sua escrava Bila para Jacó coabitar e ter um filho como se de Raquel. Mas, quando Lia pára de engravidar, recorre ao mesmo expediente e entrega sua escrava Zilpa para Jacó. Em suma: em uma década, Jacó teve 12 filhos com quatro mulheres diferentes e na mais perfeita harmonia (Gênesis caps 29 e 30).

Outro manancial de histórias eróticas e a do rei Davi e de seu filho Salomão. Que Davi era uma predador sexual parece evidente, tanto que apesar de já casado com Mical e Abigail, “tomou Davi mais concubinas e mulheres de Jerusalém, depois que veio de Hebron e nasceram mais filhos e filhas” (2º Samuel 5,13).

A epopéia erótica mais conhecida de Davi foi quando à noite, passeando pelo terraço do palácio, viu uma mulher tomando banho nua em outro terraço. Era Bate-Seba (Betesabá). Davi ordenou que a levassem ao palácio e a possui naquela mesma noite. Ela engravidou. O problema é que era casada com um bom soldado, Urias. Como solução para o problema, Davi mandou chamar Urias da guerra para que dormisse com a mulher e o filho passasse como do marido. Urias, em fidelidade à pátria e aos soldados que estava na batalha, recusou dormir com Bate-seba. Davi encontrou solução mais prática para o problema: manbdou Urias para a frente de batalha para deixar que fosse morto. Urias morreu em combate e Davi casou com a viúva (2º Samuel 11).

Antes de Salomão chegar ao poder, o filho rebelde de Davi, Absalão, proporcionou outra história picante: “Armaram para Abasalão uma tenda no eirado e ali, à vista de todo Israel, ele coabitou com as concubinas de seu pai” (2º Samuel 16,22). Cena de filme pornô…

Mas, vamos a Salomão, que no quesito se cercar de mulheres, dava de capote nos milionários e playboys de hoje. Diz 1º Reis, capítulo 11: “Ora, além da filha de faraó, amou Salomão muitas mulheres estrangeiras; moabitas, amonitas, edonitas, sidônias e hetéias. A estas, se apegou Salomão pelo amor. Tinha setecentas mulheres, princesas e trezentas concubinas…”

Mesmo com tanto tempo dedicado a mulheres ainda lhe sobravam algum para reinar e também para escrever. Foi Salomão o autor dos Salmos e do Eclesiastes, talvez os mais belos livros bíblicos. Ele também escreveu os “Cantares”, poema erótico encravado no meio da Bíblia. “Beija-me com os beijos de tua boca que melhor é teu amor do que o vinho”. “Leva-me à sala do banquete e o teu estandarte sobre mim é o amor”. “Já despi a minha túnica, hei de vesti-la outra vez?” e por aí vai.

Ah, e para finalizar este texto, uma curiosidade algo GLS, bem à moda do revisionismo feito pelos grupos gays (que sustentam que Zumbi e Shakespeare eram gays. Talvez o fossem, mas ter certeza, quem há de?). A relação do rei Davi, ainda guerreiro com Jônatas, filho do então rei Saul, era curiosa. Trechos suspeitos: “Acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1º Samuel 18, 1). “Jônatas fez jurar a Davi de novo pelo amor que este lhe tinha, porque Jônatas o amava com todo o amor da sua alma” (1º Samuel 20, 17). Quando Jônatas morreu, Davi se lamentou assim: “Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas, tu era amabilíssimo para comigo, excepcional era teu amor, ultrapassando o amor de mulheres” (2º Samuel 1, 26). “Brokeback mountain” perde para isso. Pensando bem, vou a ler a Biblia com mais assiduidade, como querem os críticos citados no primeiro parágrafo.


Por Cefas Carvalho – Escritor


Pensador Anônimo

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